Eventos Astronômicos

A noite em que auroras foram vistas no Rio de Janeiro

O fenômeno das auroras boreais ou austrais é fantástico. Luzes esverdeadas emanam da alta atmosfera e criam um cenário único. Infelizmente, as auroras não ocorrem em latitudes próximas ao equador, o que quer dizer que não são visíveis do Brasil comumente.

Elas acontecem devido a junção de fenômenos ainda pouco compreendidos da interação envolvendo o vento solar e a magnetosfera da Terra. Tudo começa ainda no Sol, quando a nossa estrela envia para o espaço uma tempestade geomagnética. Uma nuvem de plasma gigantesca vai em direção ao sistema solar mais distante viajando a mais de 2 mil km/s, até que alcançam a Terra em três dias.

Aas auroras acontecem quando uma explosão solar tem força suficiente para ionizar o ar acima de nossas cabeças e na camada atmosférica que conhecemos como ionosfera. Os prótons e elétrons são canalizados e acelerados pelas linhas do campo magnético terrestre, colidindo com os gases atmosféricos em até 400 quilômetros de altitude.

Por que não são visíveis do Brasil?

As linhas do campo magnético emergem a partir dos polos do planeta e, quando as partículas do vindas do Sol chegam até aqui, elas espilaram em direção aos polos, funcionando como uma porta de entrada para a energia que chega da estrela. Em outras palavras, acima do Brasil, não há campo magnético emergindo do solo, mas existe uma espécie de manta magnética nos cobrindo e impedindo a interação com as moléculas do ar acima de nós.

Quando elas foram visíveis do Rio de Janeiro?

Ao vasculhar reportagens do antigo jornal carioca chamado “Jornal do Comércio”, os pesquisadores da NASA, Japão e Reino Unido, incluindo até um brasileiro chamado Denny Oliveira, acharam uma reportagem onde o astrônomo francês Emanuel Liais relatava observações de auroras no Rio de Janeiro na noite de 15 de fevereiro de 1875.

De acordo com os pesquisadores, Emanuel foi diretor do Observatório Imperial naquele mesmo ano, tendo sido nomeado diretamente pelo imperador do Brasil na época, o Pedro II, onde realizava pesquisas sobre movimentos planetários e cometas.

Representação artística. Créditos: Reprodução.

Às 19h45 (hora local), o observador notou a aurora, uma luz branca alinhada com o campo magnético terrestre. Posteriormente, os raios de luz variáveis moveram-se de oeste para leste, assumindo tonalidades avermelhadas na parte inferior e esverdeadas na parte superior. Aparentemente, o fenômeno durou aproximadamente 40 minutos até desaparecer completamente.

Os pesquisadores dizem que devemos tomar cuidado com relatos desse tipo, já que existem fenômenos atmosféricos que podem enganar, mas há alguns indícios de que as observações de Emanuel foram reais. Primeiro, ele menciona que algumas nuvens passaram por baixo das auroras e, bom, ele sabia que o fenômeno teria a obrigação de ocorrer acima das nuvens devido a altitude. Em segundo lugar, o fenômeno surgiu da direção da inclinação da agulha magnética e gerou listras brancas na direção da fonte do campo.

Para deixar a observação ainda mais incontestável, o astrônomo ainda observou as auroras através de um espectrógrafo, que é uma espécie de aparelho capaz de dividir a luz e obter o espectro do que você está observando. Os espectros aurorais mostram linhas de emissão, enquanto os espectros de luzes solares refletidas mostram linhas de absorção e o astrônomo diz que encontrou evidências da primeira opção naquela noite.

Qual é a explicação?

Os pesquisadores chamam o fenômeno de “aurora esporádica” e parece que elas podem ocorrer mesmo em momentos de baixa atividade geomagnética. Aliás, a pesquisa ainda mostra que essa não é a primeira vez que auroras são relatadas no Rio de Janeiro. Há indícios de que o astrônomo português Sanches Dort teria avistado essas luzes no céu entre 1781 e 1788. Devem ter ocorrido em épocas de elevada atividade magnética, mas não há como afirmar com confiabilidade de que eram realmente auroras.

De qualquer forma, é muito legal imaginar que as auroras já puderam ser vistas aqui mesmo no Brasil. Hoje em dia, a poluição luminosa exagerada dificultaria a visão, mas que seria interessante ver algo assim, seria demais.

Alexsandro Mota

Nordestino, um grande amante da astronomia e divulgador científico há quase uma década. Sou o criador do projeto Mistérios do Espaço e dedico meu tempo a tornar a astronomia mais acessível.